Aparentemente, esta seria apenas mais uma noite de Verão, uma noite quente, iluminada pela Lua cheia. É sexta-feira, mas não, esta noite vai ser diferente é a penúltima sexta antes do fim das ferias. Tanta nostalgia que paira no ar, dormir ou adormecer tornou-se uma tarefa difícil. Estava na cama com os phones do ipod nos ouvidos, a ouvir uma daquelas músicas que só nos dá vontade de dançar, mas surpreendentemente não me apeteceu dançar. Levantei-me lentamente para não fazer barulho, quase que conseguia ouvir o bater do coração do gato.
Dirigi-me até á cozinha muito cuidadosamente, abri a porta do frigorífico e retirei uma garrafa de leite. Depois de saciar a minha sede, sentei-me na minha poltrona, virada para o luar e senti a brisa suave desta noite a acariciar-me o rosto, aqui ao contrário do que na cidade o movimento nocturno destina-se apenas aos animais. Ambiente tal estava instalado proporcionando às pessoas que se recordassem, foi então que a saudade apertou. Os amigos de sempre já não pertenciam a esta vida, já tinham passado 80 anos desde que os conhecera, não sabera nada deles desde o Secundário. Percorremos caminhos distintos, construímos vidas completamente diferentes. As promessas feitas há tantos anos dissiparam-se com o tempo, na altura pareciam tão reais e honestas. O “sempre” reside hoje em dia nos meus pensamentos, nas minhas memorias e ate nas minhas revoltas por não ter tornado esta vida diferente.
Hoje com 96 anos, sento-me neste banco onde passava horas quando era adolescente e pensava que o mundo ia acabar. Hoje recordo com saudade os amigos de sempre e a felicidade de nós jovens na altura. Hoje também enterro comigo sentimentos nunca antes dados a conhecer. E lentamente naquela nostalgia o meu corpo foi-se deixando cair até ao último batuque do meu coração. Agora poderei dormir e ter uma noite tão profunda como à muito não tinha.
